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Ex-juiz Márlon Reis diz que deputados votaram a favor de Temer não com cérebro, mas estômago
03/08/2017 - 12h06 em Política

AQUILES EMIR

O advogado Márlon Reis, ex-juiz de Direito e um dos autores da Lei da Ficha Limpa e do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, criticou a postura dos deputados que votaram contra a autorização da Câmara Federal para que o Supremo Tribunal Federal abrisse investigação contra o presidente Michel Temer. “Eu diria que eles votaram com o estômago, em lugar de votar com o cérebro, com a racionalidade”, disse ele em entrevista ao portal UOL.

De acordo com o placar da votação,  263 escolheram aceitar o relatório aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, de autoria do deputado mineiro Paulo Abi-Ackel (PSDB), que descartava a denúncia, contra 227 que eram a favor da investigação.

Numa das críticas mais contundentes ao resultado da votação, Márlon Reis diz que “o dinheiro, na visão desses deputados, conta mais do que a opinião pública para o seu regresso à Câmara dos Deputados no ano que vem”, numa referência à liberação de emendas parlamentares antes das votações na CCJ e no plenário da Câmara.

Na interpretação do advogado, os apoiadores do presidente Michel Temer “preferiram ficar com esse dinheiro e aceitaram o peso de votar a favor de um governo impopular”. Recente pesquisa do Instituto Datafolha, Temer tem a menor aprovação em 28 anos –apenas 7% consideram o governo como ótimo ou bom.

“Os deputados pesaram duas situações, considerando qual seria a mais importante para a sua reeleição no ano que vem”, avalia o ex-juiz, acrescentando que “de um lado, estava a grande impopularidade de votar na manutenção do presidente Temer na Presidência. De outro, o lado que preponderou, leva em conta a importância das emendas parlamentares, do dinheiro deslocado pelos deputados para suas bases para a reeleição. Diante dessa dúvida, eles consideraram que era mais efetivo receber as emendas, o dinheiro.”

Ajuste – Na opinião do advogado, esta é uma atitude que contradiz qualquer tentativa de ajuste fiscal, como vem sendo anunciado desde o início do mandato do peemedebista.

“O que se percebe é que houve uma extensão dos danos para segmentos mais necessitados, como, por exemplo, os aposentados, em troca do direcionamento de vantagens econômicas para parlamentares e segmentos fortes do empresariado que o presidente Temer objetiva ter a seu lado”, frisou.

Na última segunda-feira (31), uma pesquisa feita pelo Instituto Ibope mostrou que 81% dos eleitores brasileiros estavam a favor da abertura do processo contra Temer no STF. “Os parlamentares, portanto, agiram contra a vontade popular, em sua maioria, o que apenas ficou mais evidente nesta quarta-feira”, afirma Márlon Reis.

Ainda de acordo com o advogado, “mais do que uma crise, o que está acontecendo é a revelação de procedimentos. É como se nós estivéssemos vendo de forma crua circunstâncias que sempre marcaram o procedimento político no âmbito do Congresso. Por incrível que pareça, eu sinto um certo alívio em perceber a sociedade finalmente vendo as coisas de forma nua e crua como ela acontece. Espero que a sociedade saiba o que fazer com isso.”

 Sobre o pronunciamento do presidente Michel Temer, após a votação, quando, ao analisar os votos recebidos, agradeceu a Câmara dos Deputados “por sua decisão e todos os brasileiros de boa vontade que acreditaram no nosso país. Vamos trabalhar juntos pelo Brasil”, Márlon Reis concordou com a fala. “A vitória não foi de fato de Temer, mas de um modo de fazer política”.

O ex-juiz observou ainda que “o troca-troca, que é a base do chamado presidencialismo de coalizão, atingiu agora seu ápice no governo Temer. E uma maioria parlamentar está feliz com isso. Trata-se de proteger um modo de pensar a política que, infelizmente, é contrário aos interesses do Brasil e que precisa ser superado.”

Na avaliação do advogado, o legado que fica para o cidadão após essa movimentação às claras de barganha de voto por dinheiro é “a visibilidade aumentada da importância do voto consciente”.

(Com dados do UOL)

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